Morrissey faz o Porto esperar… e transforma a Super Bock Arena num coro de eternidade
REPORTAGENS
2 AGOSTO 2026

MORRISSEY

Morrissey faz o Porto esperar… e transforma a Super Bock Arena num coro de eternidade
Depois de mais de uma década sem atuar em Portugal, Morrissey regressou ao Porto para um concerto intenso, teatral e profundamente emotivo. Perante uma Super Bock Arena esgotada, o antigo líder dos The Smiths fez milhares de pessoas cantar, recordar e celebrar um repertório que continua a desafiar o tempo.

Há artistas que entram em palco. Morrissey faz o público esperar por esse momento.

Na noite de sábado, 1 de agosto, a Super Bock Arena recebeu um dos regressos mais aguardados dos últimos anos. A sala encheu-se muito antes da hora marcada e, em vez da habitual primeira parte, os ecrãs projetaram durante cerca de meia hora uma sucessão de videoclipes dos anos 60 e 70, com nomes como David Bowie, The Rolling Stones e outros ícones da música popular. À medida que o tempo passava, a ansiedade crescia. Quando os vídeos terminaram e Morrissey continuava ausente, a plateia respondeu com assobios e impaciência — um momento breve que apenas reforçou a expectativa em torno da entrada de uma das figuras mais marcantes da música britânica.

Quando finalmente as luzes se apagaram, toda a tensão deu lugar à ovação.

Sem recorrer a grandes efeitos cénicos, Morrissey mostrou que continua a dominar um palco apenas com a sua presença, voz e personalidade. A abrir, “Billy Budd” deu imediatamente o tom para um concerto onde a intensidade nunca baixou.

Ao longo de cerca de hora e meia, o alinhamento percorreu várias fases da carreira do artista, cruzando temas da sua discografia a solo com alguns dos momentos mais celebrados do repertório dos The Smiths. Clássicos como “How Soon Is Now?”, “Shoplifters of the World Unite”, “I Know It’s Over” e o inevitável encore com “There Is a Light That Never Goes Out” transformaram a Super Bock Arena num enorme coro, onde milhares de vozes acompanharam cada palavra.

A carreira a solo também teve lugar de destaque. “First of the Gang to Die”, “Everyday Is Like Sunday”, “Suedehead”, “Irish Blood, English Heart” e “Life Is a Pigsty” confirmaram porque continuam entre os temas mais acarinhados pelos fãs.

Um dos momentos mais marcantes da noite aconteceu precisamente antes de “Life Is a Pigsty”, quando Morrissey interrompeu o espetáculo para falar de Fernando Pessoa, referindo-se ao escritor português como “o maior poeta”. A homenagem, acompanhada por uma referência ao Livro do Desassossego, foi recebida com uma das maiores ovações da noite.

Visualmente sóbrio, mas musicalmente irrepreensível, o concerto privilegiou as canções e a interpretação. A banda apresentou-se coesa e poderosa, sustentando a voz de Morrissey, que continua a preservar a identidade que o tornou uma das figuras mais influentes da música alternativa das últimas quatro décadas.

Depois de passar por temas como “The Bullfighter Dies”, “The Monsters of Pig Alley”, “Sure Enough, the Telephone Rings” e “Jack the Ripper”, o concerto terminou ao som de “There Is a Light That Never Goes Out”, encerrando uma noite de comunhão absoluta entre artista e público. Já com a banda fora de palco, “You’ll Never Walk Alone”, na versão de Judy Garland, ecoou pelas colunas enquanto os espectadores abandonavam lentamente a arena.

Mais de dez anos depois da última atuação em Portugal, Morrissey provou que continua a ocupar um lugar único na música contemporânea. Entre nostalgia, irreverência e uma impressionante fidelidade artística, o antigo líder dos The Smiths ofereceu ao Porto um concerto que dificilmente será esquecido pelos milhares de fãs que esgotaram a Super Bock Arena.