Pagaram para estar sentados — mas ninguém quis ficar

Pagaram para estar sentados — mas ninguém quis ficar

Pagaram para estar sentados — mas ninguém quis ficar
Num auditório onde o protocolo normalmente pede silêncio e plateia sentada, o concerto dos The Divine Comedy acabou por seguir um guião diferente. A sala estava cheia na Casa da Música, mas bastaram alguns temas e o humor elegante de Neil Hannon para quebrar a formalidade. Quando soaram os primeiros acordes de I Like, parte o público levantou-se, avançou para a frente de palco e ali ficou — alguns até sentados no chão — transformando um concerto pensado para ouvir tranquilamente numa celebração inesperadamente próxima entre banda e fãs.
Num auditório onde o protocolo normalmente pede silêncio e plateia sentada, o concerto dos The Divine Comedy acabou por seguir um guião diferente. A sala estava cheia na Casa da Música, mas bastaram alguns temas e o humor elegante de Neil Hannon para quebrar a formalidade. Quando soaram os primeiros acordes de I Like, parte o público levantou-se, avançou para a frente de palco e ali ficou — alguns até sentados no chão — transformando um concerto pensado para ouvir tranquilamente numa celebração inesperadamente próxima entre banda e fãs.

A sala Suggia da Casa da Música recebeu uma plateia completamente esgotada para o aguardado regresso dos The Divine Comedy a Portugal. A banda liderada por Neil Hannon voltou ao país para apresentar ao vivo o seu mais recente trabalho, o 13.º álbum de estúdio, Rainy Sunday Afternoon.

Desde 2022 que os fãs portugueses aguardavam por este reencontro, e a receção calorosa na Casa da Música demonstrou bem a fidelidade deste público ao universo musical de Hannon.

Logo na entrada em palco, o vocalista surgiu com a elegância que lhe é característica: fato preto, chapéu igualmente negro e óculos escuros. Ao lado, uma pequena mesa de apoio completava o cenário, onde não faltava uma garrafa de bom vinho tinto português — detalhe que serviu de pretexto para algumas piadas e comentários ao longo da noite.

O concerto arrancou com Achilles, abrindo caminho para um alinhamento que percorreu várias fases da carreira da banda. Seguiram-se temas como Old Man e When the Lights Go Out, antes de o grupo apresentar material mais recente, incluindo a faixa-título do novo álbum, Rainy Sunday Afternoon.

Num dos momentos mais bem-humorados da noite, Hannon dedicou a quarta música do concerto “àqueles que gostariam de ter bebido um pouco mais antes de assistir a este espetáculo”, provocando gargalhadas generalizadas numa sala já completamente rendida ao seu humor britânico.

A interação com o público foi constante ao longo de todo o espetáculo. Entre comentários espirituosos e pequenas histórias, o vocalista foi conduzindo a noite com a teatralidade e ironia que caracterizam o projeto The Divine Comedy.

Um momento particularmente curioso surgiu durante a apresentação da banda: em vez de uma simples introdução, Hannon preparou e serviu cocktails aos músicos enquanto os apresentava um a um ao público, criando um momento descontraído que reforçou o ambiente de proximidade com a plateia.

Musicalmente, o concerto percorreu vários registos da discografia da banda. Clássicos como Lady of a Certain Age, Mutual Friend e Absent Friends surgiram ao lado de temas mais recentes, enquanto a energia da sala aumentava progressivamente.

Um dos momentos mais inesperados aconteceu durante I Like. Incapaz de conter o entusiasmo, parte do público levantou-se literalmente dos seus lugares e avançou para a frente do palco para dançar. Pouco depois, muitos acabaram por se sentar no chão, permanecendo ali até ao final do espetáculo.

Mesmo para quem não se considera propriamente fã da banda, a experiência acabou por revelar-se surpreendente. A sonoridade de pop barroco que caracteriza a escrita de Neil Hannon — rica em arranjos orquestrais, humor e melodias sofisticadas — revelou-se cativante ao vivo.

O clímax do concerto chegou com um dos maiores clássicos do grupo, The National Express, que transformou a sala num coro coletivo. Após uma breve saída de palco, o encore trouxe ainda To the Rescue, Invisible Thread e o emotivo final com Tonight We Fly, encerrando a noite com a elegância melancólica que tantas vezes define a banda.

No final, ficou a sensação de ter assistido não apenas a um concerto, mas a um espetáculo completo — onde música, humor e teatralidade se cruzam de forma natural. E mesmo para quem chegou sem grandes expectativas, a conclusão acabou por ser inevitável: é difícil não sair rendido ao universo musical criado por Neil Hannon.

Setlist — Casa da Música, Porto (9 março 2026)

  1. Achilles
  2. Old Man
  3. When the Lights Go Out
  4. Assume the Perp
  5. Rainy Sunday Afternoon
  6. I Want You
  7. Lady of a Certain Age
  8. Indie Disco
  9. Neapolitan Girl
  10. Mar-a-Lago
  11. Bang
  12. Mutual Friend
  13. I Like
  14. Bad Ambassador
  15. Hunter
  16. Other People
  17. Absent Friends
  18. Alfie
  19. Generation Sex
  20. National Express

Encore

  1. To the Rescue
  2. Invisible Thread
  3. Tonight We Fly

Galeria completa em