Depois de “Cara de Espelho” (2024), álbum que revelou uma das propostas mais singulares da nova música portuguesa, a banda apresenta agora “B”, um disco que aprofunda o universo criativo de Cara de Espelho e confirma a centralidade da palavra como motor da canção.
O título, simples e sugestivo, convoca a ideia de “lado B”: não como espaço menor, mas como território onde se revelam outras camadas do discurso. Em “B”, Cara de Espelho afinam o olhar, recorrem à ironia como ferramenta e constroem canções que observam comportamentos, discursos e contradições do quotidiano. Há quem “aceite e seja parte da seita”, quem viva preso à “roda” que nunca para, quem negue evidências com convicção absoluta ou quem transforme tudo, do território às relações, em mercadoria. Sem slogans nem moralismos, o disco prefere mostrar, sugerir e deixar espaço ao ouvinte.
As letras, assinadas por Pedro da Silva Martins, percorrem um alinhamento coeso onde cada tema funciona como fragmento de um mesmo retrato. Canções como “A Seita“, “Gigantone“, “Roda de Crédito“, “AI“, “Cara Podre“, “Buraco“, “Pica-Miolos” ou “Aldeia Fantasma” cruzam sátira, humor negro e observação social, a par de temas já conhecidos como “Bem-Vindo” e “D de Denúncia“, reforçando a identidade de uma banda que faz da língua portuguesa matéria viva, sonora e crítica.
Como single que acompanha o lançamento do álbum, “Cara Podre” expõe, com ironia cortante, o exercício recorrente da negação pública, do discurso que se auto-justifica e da retórica que tudo relativiza, mesmo perante o evidente. Sem apontar nomes nem lugares concretos, a canção constrói um retrato reconhecível de quem fala alto, desvia o olhar e transforma a palavra em escudo.
Musicalmente, “B” expande a linguagem de Cara de Espelho, cruzando instrumentos tradicionais, experimentação tímbrica, eletrónica discreta e soluções rítmicas pouco convencionais, sempre ao serviço da palavra. Os arranjos são coletivos e refletem a relação de proximidade e cumplicidade que a banda foi construindo ao longo de uma longa e rica digressão com o álbum “Cara de Espelho” — uma experiência de palco determinante para o som, a dinâmica e a respiração deste novo disco.
“B” foi gravado no Estúdio Louva-a-Deus, em Lisboa, entre fevereiro e julho de 2025, com produção de Nelson Carvalho e Cara de Espelho, gravação e mistura de Nelson Carvalho e masterização de Mário Barreiros. A identidade visual mantém a continuidade estética do projeto, com design e imagens assinados por Ana Viana, responsável pelo universo gráfico de Cara de Espelho desde o início.