U Outro Lado dos Delfins: histórias, lados B e um concerto que se viveu à distância de um braço

U Outro Lado dos Delfins: histórias, lados B e um concerto que se viveu à distância de um braço

Na Casa da Música, os Delfins trocaram os grandes palcos pela intimidade e mostraram que os lados B também contam a história de uma banda — talvez até melhor.
Na Casa da Música, os Delfins trocaram os grandes palcos pela intimidade e mostraram que os lados B também contam a história de uma banda — talvez até melhor.

Na Casa da Música, os Delfins provaram que a longevidade também se constrói a partir das margens do repertório. “U Outro Lado”, digressão centrada nos lados B dos grandes êxitos, transformou-se num concerto de proximidade, feito de canções menos óbvias, memórias partilhadas e histórias contadas sem pressa.

Entre músicas, Miguel Ângelo assumiu o papel de anfitrião e contador de episódios, regressando a um Porto de outros tempos. Recordou a mítica ida à Vadeca para comprar instrumentos que acabariam a ser desembrulhados na Ribeira, antes de um concerto memorável no Anikibó — um tempo em que tudo era descoberta, urgência e vontade de tocar.

A viagem pelas histórias da banda passou também pelo momento em que os Delfins quiseram gravar um verdadeiro álbum de rock, numa época em que todos os estúdios eram analógicos. A solução foi radical e reveladora do espírito da banda: transformar a própria sala de ensaios em estúdio. Desse processo nasceu o álbum “Ser Maior”, que acabaria por dar nome à canção homónima, hoje peça fundamental do percurso do grupo.

Outra das histórias mais curiosas da noite foi contada por Fernando Cunha, ao recordar como os Delfins “roubaram” uma canção aos Heróis do Mar. A música original, “Nas Muralhas de Olivença”, da autoria de Pedro Ayres Magalhães, viria a ganhar nova letra — com autorização expressa — e uma nova vida no universo dos Delfins, sob o nome “A Casa em Sintra”.

Uma das particularidades deste concerto foi a possibilidade de o público escolher seis músicas para integrar o alinhamento. Longe de ser um momento isolado, essa escolha foi diluída ao longo do espetáculo, reforçando a ideia de partilha e de cumplicidade entre banda e plateia, numa experiência que se construiu em conjunto do primeiro ao último tema.

Essa proximidade estendeu-se também às histórias pessoais, que foram surgindo naturalmente entre canções. Cada elemento da banda partilhou um episódio que ajuda a explicar a sua relação com os Delfins. O baterista contou como passou por uma banda formada por ele, um músico indiano e outro negro, tocando em bares. Já Rui Fadigas protagonizou um dos momentos mais divertidos da noite: tocava sempre sentado e de costas para o público, por vergonha. A dificuldade em integrar os Delfins passou precisamente pela necessidade de tocar de pé e de frente — “daí o nome Fadigas”, atirou Miguel Ângelo, entre risos.

A história da entrada de Luís na banda também foi revisitada. Oriundo dos Olivais e vindo dos Radar Kadafi, não queria juntar-se aos “betos da linha”. Mas depois de ouvir “A Canção do Engate” numa discoteca lisboeta, algo fez sentido. O primeiro ensaio, a receção por Fadigas e a empatia imediata acabaram por selar um caminho que ainda hoje se mantém.

Já perto do final, enquanto Miguel Ângelo preparava um DelGin em palco, duas fãs subiram para partilhar a viagem emocional que têm feito com a banda ao longo dos anos. O momento serviu de mote para “Os Melhores Anos das Nossas Vidas”, num dos instantes mais cúmplices da noite.

No final, ficou claro que “U Outro Lado” é mais do que uma digressão de lados B. É uma celebração da memória, da relação com o público e da identidade de uma banda que nunca deixou de se explicar em palco. Um concerto que não se limita a ouvir — vive-se. E que continua a justificar, hoje como ontem, a vontade de voltar a ver os Delfins ao vivo.

Galeria completa em

Alinhamento:
U Outro Lado
A Voz do Crime
Ser Maior
A Queda de Um Anjo
Sempre Ausente
A Casa em Sintra
Aquele Inverno
Esta Educação
Se Eu Pudesse um Dia
Hino do Amor
Manhã Perdida
Será
Os Melhores Anos
Sal
Cou Como Um Rio
1 Lugar Ao Sol
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A Chama Ardente
Nasce Selvagem