A bússola volta a apontar para o norte

A saudade é um sentimento global, mas que só em português tem uma palavra a ele dedicado. Não há fome que não dê fartura e a saudade está prestes a terminar!!

Os concertos estão de volta e o público, sedento, corresponde em massa. Estão de volta os concertos e os festivais. O norte, como sempre, abriu as hostilidades e as portas da Alfândega do Porto “escancararam-se” para mais 3 dias de muita música.

Dia 1

A primeira “noite” começou bem cedo. Agendado para as 17:30h, altura em que grande parte do público ainda estava a contribuir para o desenvolvimento do país, S. Pedro subiu ao palco. Sol a pino, calor de verão e dá-se início a uma nova Era . Ex rapper, hip-hopper e metaleiro, Pedro Pode, encantado com a beleza da foz do rio Douro, e com vistas privilegiadas sobre uma das zonas mais turísticas da cidade do Porto, ecoa temas como Passarinhos, Apanhar Sol, o Mundo, Estrelas e Cometas, entre outras. O público, ainda escasso, começa cedo a ceder à tentação.

Seguiu-se uma viagem até (ao) Paraguaii na companhia de Giliano, Zé Pedro e Rolando e ao som de “Propeller“, o seu mais recente trabalho. A vida não é fácil quando se toca no mesmo dia (e palco) dos Ornatos Violeta, mas não só o North Music Festival garante a qualidade de todas as bandas, como o trio faz questão de se afirmar perante um público exigente. A música eletrónica continua com Pedro da Linha até ao surgimento dos PAUS.

Fábio Jevelim, Joaquim Albergaria, Makoto Yagyu e Hélio Morais, que viria a fazer a “dobradinha” ao tocar, mais tarde com os Linda Martini, só pararam quanto terminou o tempo que lhes estava destinado. Com a sua atuação baseada na apresentação do seu mais recente álbum YESS, editado durante a pandemia, PAUS mexeram com os termómetros da Alfândega. Se o tempo continuava quente, a pujança e a força rítmica das duas baterias não deixava ninguém preso ao chão.

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Anoitece e os primeiros filhos da cidade sobem ao main stage da Alfândega do Porto. Depois de um breve intervalo para digerir uma refeição levezinha, até porque a fome (e a sede) começava a causar mossa, tivemos de nos preparar para “o privilégio de fazermos escolhas erradas“, como tão bem nos ensinou Rui Silva, aka Gon, e companhia (i)limitada!

Muda a banda, muda o estilo e muda a história do North Music Festival. Uma das melhores bandas nortenhas de todos os tempos, e por muitos considerada a melhor banda portuguesa da década de 90, os ZEN relembraram temas como U.N.L.O., 11a.m. e Not Gonna Give Up. Alguém esperava uma atuação diferente? Saltos, mosh e muita animação. A música eletrónica deu origem ao rock alternativo e, perdoem a minha sinceridade, começava-se a (re)desenhar o verdadeiro North Music Festival. Uma atuação sem igual, onde a idade regrediu e devolveu a Rui Silva o espírito animalesco que sempre o caraterizou.

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Mas eis que surge, então, a segunda aparição de Hélio Morais. Agora na companhia de André Henriques e Cláudia Guerreiro. Ouviram-se, essencialmente, os temas do mais recente trabalho “ERRÔR” sempre com a sonoridade muito peculiar que carateriza a banda de Lisboa. Lembrando a primeira vez que “tocamos no HardClub, ainda do lado de lá do rio… “Quantos dos 8 elementos do público (da altura) se encontram aqui hoje?“, pergunta Hélio Morais, sendo correspondido com uma ovação imensa. “Nunca nos esqueceremos do sítio onde tocamos pela primeira vez!“, remata.

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A noite atinge o seu limite e passamos para o dia seguinte. Ornatos Violeta não poderiam ser os últimos de uma noite que estava a ser memorável. Antes, fizeram questão de ser os primeiros do dia seguinte. Eram 00:30m quando o “monstro” subiu ao palco à procura dos amigos. Estavam todos lá! Ninguém faltou ao chamamento de Manuel Cruz.

Boa noite CAR@LH*!!“. Haverá forma mais típica e nortenha de cumprimentar alguém? Manuel Cruz abriu a mala, sacudiu o pó e trouxe o melhor dos Ornatos Violeta. O Monstro Precisa de Amigos continua a ser um dos melhores álbuns de todos os tempos e temas como Ouvi Dizer, Chaga e Dia Mau acompanharam outros temas de não inferior valor, sempre com a participação de todos quantos lá estavam (e mais os que, acredito, ouviam do outro lado do rio).

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Com tanta e tão boa qualidade musical, estaria a Alfândega do Porto preparada para o segundo dia de festival?

Dia 2

A pandemia veio alterar hábitos a todos os níveis e, ao que parece, o North Music Festival foi apanhado pelo vírus. O segundo dia foi dedicado a um registo mais eletrónico, com Robert Schulz e Don Diablo a terminarem a noite. Uma noite que começou (ainda de tarde) com um atravessar de rio. Domingues veio da outra margem para, de forma visivelmente comovido, agradecer a oportunidade de realizar um sonho: tocar num grande palco, numa localização tão caraterística e com a melhor vista…

Segue-lhe Capicua. A rapper portuense, com rimas de intervenção e de críticas pró feminismo foi uma lufada de ar fresco neste segundo dia de espetáculo. Notoriamente o pior dia do festival, com um índice de afluência a cair, relativamente ao dia anterior. Provavelmente o dia (o segundo dia de festival) que sofreu mais com a desistência dos One Republic desde que, inicialmente, se anunciara o cartaz para a edição de 2022 do North Music Festival. Ainda assim a noite terminou com duas atuações explosivas de batida, cor e efeitos visuais que encheram a “pista” da Alfândega.

Fotografia cedida por Sérgio Pereira

Dia 3

Para o derradeiro dia esperava-se a maior enchente. Os nomes sonantes de Waterboys e Jesus and Mary Chain relembram as longas e intermináveis noites na mítica discoteca nortenha O Batô. Uma legião de aficionados ruma à Alfândega para ver os seus ídolos de uma juventude, ao vivo.

Como sempre o dia começa cedo e Keep Razors Sharp e o Conjunto Cuca Monga aquecem o ambiente, ainda fraco, graças ao excelente dia de praia que ninguém quis perder. Os GNR, sobre o comando do General Reininho, entram em cena às 20:20h. Não há qualquer novidade. O alinhamento é praticamente o mesmo dos últimos concertos, o repertório não muda, mas quem vai ver GNR tem um espetáculo garantido. Não inovam, não criam, mas nunca desiludem.

A Alfândega do Porto é a nossa casa e a poucos metro de distância da residência de um dos elementos da banda, quase que nos sentimos no lar, tal é o à vontade e a empatia que todos sentem por quem canta Dunas! Ana Lee, Efetivamente, Sub 16, entre outros “hinos” estiveram entre a panóplia de temas trazidos até nós. São intemporais e não fosse o avançar das idades de Rui Reininho, Toli César Machado e Jorge Romão, os GNR estariam a “aparecer” no panorama musical português, tal é a força e a vontade com que tocam. São os “nossos” dinossauros, os Rolling Stones lusitanos.

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Avança a hora e chega Mike Scott com a sua comitiva para uma viagem no tempo. Donos e senhores de grandes temas com um gostinho a sonoridades tradicionais escocesas com uma singela mistura de folk, os Waterboys foram impedindo que qualquer festivaleiro tivesse ficado indiferente. Percorrendo os álbuns Modern Blues (2014), The Secret Life of Waterboys (1991) e o magistral Fisherman’s Blues (1988) foram cantando e encantando uma noite que se esperava de total apoteose. Mas o momento alto estava reservado já para perto do final. Ao soarem os primeiros acordes de The Whole of the Moon, a Alfândega do Porto parou. Acabaram os saltos e as danças, todos sacaram dos seus dispositivos móveis para registar, e eternizar, um momento tão … único!

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Mas a noite prometia e os Jesus and Mary Chain estavam prestes a subir ao palco. Depois de uma grandiosa prestação do sextagenário proveniente de terras de Sua Majestade, eis que finalmente chegam os seus conterrâneos…

Um estilo diferente, um rock alternativo que, ainda hoje, é companhia perfeita para uma noitada entre amigos. Contudo, tal mudança de estilos não jogou a favor dos cabeças de cartaz da última noite do North Music Festival. Dizem alguns que sentiram uma total indiferença por parte da banda relativamente ao público, outros queixam-se do volume estar demasiado baixo. Certo é que a opinião é geral (mas não unânime). O festival não acabou da melhor forma. Talvez pela grandiosidade da banda anterior, os Jesus and Mary Chain não tivessem conseguido alcançar o nível desejado, mesmo depois de tocarem alguns dos seus melhores temas como Amputation (Damage and Joy, 2017), I love rock and roll (Munki, 1998) e, pessoalmente as melhores April Skies e Darklands (Darklands, 1987).

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Como nota final, o regresso dos festivais de verão à Alfândega do Porto ficam positiva e agradavelmente marcados pelas prestações das bandas nacionais. Zen, Ornatos Violeta e GNR foram, para mim, as grandes atuações nestes 3 dias de música.

Até para o ano! Cá estaremos de novo com mais um grande cartaz e 3 dias de muita (e boa) música.

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